sábado, 2 de janeiro de 2010

PINTO DO MONTEIRO, SIMBOLO DA CANTORIA

SEVERINO LOURENÇO DA SILVA PINTO (Pinto do Monteiro) – Monteiro-PB – 1895 – 1990, é inquestionavelmente o nome mais respeitado no mundo da cantoria. Cantou a primeira vez em 19-01-1919, com Saturnino Mandu, no povoado Lagoa da Ilha, município de Monteiro-PB, aos 24 anos de idade. Entre cantadores e pesquisadores, praticamente ninguém lhe nega a coroa de maior repentista de todos os tempos. Tinha o dom da resposta. Seus grandes repentes pareciam fuzilar como um tiro certeiro, sem ensanchas para os adversários que, inúmeras vezes, tiveram de emborcar a viola diante do velho mestre. Conheci pessoalmente o velho Pinto no dia 5 de janeiro de 1982, quando, em trabalho de pesquisa, fui visitá-lo na cidade de Sertânia-Pe, onde morava numa pobre e pequena casa. O gênio do repente chegava ao fim da vida vitorioso e feliz como cantador, mas economicamente na penúria e sem esconder o amargor de algumas decepções pela falta de reconhecimento de sua grandeza de poeta por parte do poder público de sua terra.

João Furiba, em desafio com Pinto, gabava-se de hospedar o mestre em sua casa, em São Tomé, oferecendo-lhe o melhor conforto:

“Você é do meu convívio,
come e bebe lá em casa.”

Como o desafio andava quente, Pinto não teve contemplação com o adversário e disparou:
“Vou construir uma casa
junto ao rio Parnaíba,
de frente pra Pernambuco,
de costas pra a Paraíba,
só pra não ver duas coisas:
São Tomé e João Furiba!”

(Conforme Jomaci Dantas da Nóbrega).

Certo cantador, em apuros diante de Pinto, confessou sua desgraça:


“Cantando com Pinto velho,
tou como ave sem pena.”

Pinto deu o tiro de misericórdia na presa já abatida:

“Mas toda ave é de pena;
você disse uma heresia!
Com exceção de uma só,
chamada Ave-Maria,
aquela que o sino toca
depois da morte do dia.

(Conf. Moacir Laurentino).

Um cantador que se debatia com o velho Pinto andou laborando em erros na feitura dos versos, mas se desculpou perante o mestre:

“Pelo erro cometido,
quero ser dissimulado.”

Pinto, mesmo desconcertante na resposta, procurou conformar o colega:

“Você já está perdoado,
que a verdade não se nega.
Eu vi, mas fiz que não vi
o defeito do colega,
porque quem está se afogando
em qualquer talo se pega.”

(Informante: Moacir Laurentino).

O jovem cantador Raimundo Nonato, numa cantoria com o mestre Pinto do Monteiro, referiu-se à cidade de Cajazeiras-PB:
“Tenho amor a Cajazeiras.”

Pinto, desfiando velhas mágoas da terra natal, assim se expressou:

“Eu estimo Cajazeiras
que é o terreno seu.
Eu sou Pinto do Monteiro,
mas Monteiro não é meu!
Dei tanto nome a Monteiro,
Monteiro nada me deu!”

(Informante: o repentista Moacir Laurentino).

Numa cantoria, o desafiante de Pinto, gripado e já com a cara cheia de pinga, sem condições de continuar na luta, disse:

“De bebida já estou farto!”

O velho Pinto, sempre bamba na resposta, falou franco:

“Você não partindo, eu parto;
você não seguindo, eu sigo.
Beba aí sua cerveja,
Limpe o seu catarro antigo,
Previna seu pensamento
Pra poder cantar comigo!”

(Informante: o cantador José Morais).

Cantoria em Monteiro-PB. Pinto, em desafio com João Furiba, confessou que estava tendo prejuízo na pequena mercearia que tinha e que, em face disso, até estava pensando abandoná-la e fazer uma viagem ao Rio Grande do Norte, em busca de melhoria de vida:

“Negociar sem ganhar
não há cristão que suporte!
é melhor a gente ir
ao Rio Grande do Norte.

Furiba respondeu com ironia:

“Se você quiser ter sorte
na sua mercearia,
coloque uma etiqueta
em cada mercadoria
e ponha meu nome nela
que conquista a freguesia.

Pinto, ferido no amor próprio, replicou assanhado:

“Triste da mercadoria
que nela tiver seu nome!
Pode vir um guabiru
Com oito dias de fome,
Caga o pão, mija no queijo,
Passa por cima e não come!” (1)

Doutra feita, Furiba cantava com Pinto em Tabira – PE. O desembargador, poeta e glosador Dr. Manoel Rafael Neto, presente à cantoria, pediu um mourão em desafio. Pinto não estava querendo briga. Furiba começou a provocá-lo:

“O pedido do doutor
de qualquer forma eu aceito,
que ele, além de poeta,
é um Juiz de Direito.”

Pinto reagiu e disparou:

“Sendo com calma eu aceito,
com desaforo eu respondo,
porque minha natureza
é como a do maribondo:
nem que morra machucado,
meu ferrão eu não escondo!” (1)

Os dois referidos repentistas cantavam em Sertânea - PE, quando entrou um rapaz com as mãos encaroçadas de verrugas. Como ele aparentasse boa disposição para pagar aos cantadores, estes passaram a elogiá-lo, mas o pretenso pagante, após alguns titubeios, terminou colocando na bandeja uma cedulazinha de ínfimo valor. Furiba, vendo que fora debalde o esforço da louvação, desabafou:

“Elogiei tanto tempo,
mas perdi meu elogio!”

Pinto não alisou a pele do pagador mesquinho:

“Por isso é que não confio
em gente que tem verruga,
cachorro da boca preta,
terreno que não enxuga,
comida que doido enjeita,
casa que cigano aluga!” (1)

(1) – Informante: João Furiba.

Em 1972, Pinto cantava com Firmo Batista, na cidade de Monteiro – PB, na residência de um apologista chamado João Piaba. Os poetas cantaram loas muito tempo para um rapaz de boa aparência que, por fim, lhes ofereceu quantia insignificante, e esta ainda foi desviada pelo vento caindo fora da bandeja. Firmo Batista observou com desencanto:

“Foi tanto tempo chamando
para tão pouca quantia!”

Pinto não mediu palavras diante da ação mesquinha do rapaz:

“Esse é, como eu já sabia,
fruta de ponta de rama.
Cabra dessa qualidade,
Pinto cantando não chama,
Que cabra ruim não dá leite,
E o pouco que dá derrama!”

(Informante: Raimundo Lopes, Doca do Retrato, Paulista – PB.

Pinto, já bastante velho e doente, atendeu ao pedido de um amigo e fez um baião de viola com João Furiba. Este rematou assim uma sextilha:

“Faz pena você morrer
e ficar longe da gente!”

O velho Pinto, reunindo as forças que se esvaíam, respondeu triste e agradecido:
“Eu tava muito doente,
com piora e mais piora;
quando escutei sua voz
senti logo uma melhora,
mas vou piorar de novo
quando você for embora!”

(Informante: o cantador Severino Ferreira).

Numa cantoria, Pinto já se encontrava cansado de tanto ouvir o companheiro falar das secas de sua terra, naturalmente com exageros e mentiras. Este findou assim uma estância:
“Já está com muitos anos
que choveu em minha terra.’

O mestre Pinto encerrou o assunto com esta mentirosa mas belíssima sextilha

“Eu também sou de uma terra
que nunca deu nem saúva;
meu avô morreu de velho,
minha avó ficou viúva;
morreu com cento e dez anos
e nunca viu uma chuva.”

(Fonte: Geraldo Amâncio/Vanderley Pedreira, obra citada, p. 33).

Pinto e João Furiba cantavam em Cachoeirinha – PE, na residência de um morador do sr. Severino Lopes, que residia na cidade de Belo Jardim – PE. Furiba elogiava o fazendeiro, buscando alguma paga mais gorda:

“Esse grande fazendeiro
só cria gado ‘turino’.”

Pinto, meio enjoado e com suspeitas sobre as intenções do patrão do dono da casa, respondeu corajoso:

“Pode entrar, seu Severino,
e me pagar, se puder.
Rico na casa do pobre
alguma coisa ele quer:
ou a sela, ou o cavalo,
ou a filha, ou a mulher.”

Obs. O mestre Pinto não errou o palpite, pois, mais tarde, o patrão andava agarrado com a filha do morador. (1).

Em 1964, Furiba, a pedido de um fazendeiro chamado Manoel Felipe, organizou uma cantoria sua com Pinto. Furiba puxou o primeiro baião e, como de praxe, esperou que Pinto iniciasse o segundo, mas o mestre Pinto não quis partir na frente, forçando Furiba a fazê-lo:

“Pinto, meu caro colega,
primeiro baião foi meu;
eu agora desejava
que o segundo fosse seu,
que eu não vou servir de guia
pra quem vê mais do que eu.”

Pinto, que não sabia ficar por baixo, respondeu:

“Mas o trato aqui é seu,
o povo e o ambiente;
sendo eu fazia o mesmo
para agradar minha gente,
que, quando o defunto é meu,
sou eu quem pega na frente. (1)

Noutra cantoria de Pinto com Furiba, o velho Pinto, lampeiro, dizia-se ainda em condições de namorar e casar. Furiba, mentindo quanto aos anos de vida, ponderou:
“Deixa pra mim, que só tenho
dezoito anos de idade.’

Pinto, também resvalando para o exagero, deu resposta pronta, como de costume:
“Isso aí não é verdade.
Você quer ser inocente:
tem vinte anos que canta,
quinze que bebe aguardente,
trinta que engana o povo,
quarenta e cinco que mente!” (1)

(1) Fonte: João Furiba, obra citada, páginas 13, 37 e 40).

O velho aedo do Monteiro, em momento de grande inspiração e criatividade, recebeu de um companheiro deixa mais ou menos assim:

“Esta vida é tortuosa
e muito incompreendida!”

Pinto rematou como um mágico do repente:

“Eu comparo nossa vida
com aquela dobra do esse:
é uma ponta que sobe,
é outra ponta que desce
e a volta que tem no meio
nem todo mundo conhece.”

(Citado pelo cantor popular e compositor Antônio Nóbrega, Jornal do Brasil, 31-10-98, p. 3-B)

Certo repentista ofereceu a Pinto esta deixa:
“Abraão saudou Jesus
na casa do Pai Eterno”

Pinto respondeu bem a seu modo:

“Vá mentir lá no inferno,
cantador intrometido,
que quando Abraão viveu
Jesus não tinha nascido,
e quando Jesus nasceu
Abraão tinha morrido!” (1)

O cantador Lino Pedra Azul, num desafio com Pinto, concluiu assim uma sextilha:
“Não é pinto nem é galo,
como se tornou capão?”

O velho Pinto respondeu impiedoso:

“Como me tornei capão,
te dou resposta pequena:
pelaram a parte precisa,
cortaram e se deu a cena,
mas tua mãe, quando soube,
chorou um ano com pena!” (1)

Certo cantador desafiou assim o mestre Pinto:

“Você é tido e havido
como um cantador cruel,
mas não se exalte por isso
porque não vou lhe dar mel;
o que tenho pra você
é uma taça de fel!”

Pinto reagiu feroz:

“Eu sou como a cascavel,
que não respeita ninguém:
se enrosca numa vereda,
morde quem vai e quem vem,
e, na hora que perde o bote,
morre da raiva que tem!” (1)

Outro adversário, ameaçou Pinto assim:

“Eu junto o que você tem
e queimo numa fogueira!”

Pinto foi desconcertante:

“Você deixe de besteira,
que eu vou a sua morada,
boto terra no seu leite,
cuspo na sua coalhada
e enfinco um touco na porta
pra lhe matar de topada!” (1)

Um cantador, que se encontrava tomando couro de Pinto, apelou para a velha rivalidade deste com Lourival Batista:

“Em vez de bater em mim,
vá bater em Lourival!”

Pinto, como jararaca assanhada, despejou o veneno:

“Inda vejo Lourival
morto debaixo de um trem,
ou então pedindo esmola
onde não passe ninguém,
e, se passar, seja um cego,
pedindo esmola também!”

Ivanildo Vila Nova, num baião de viola com Pinto, disse:

Não tenha medo de mim
Nem vá ficar de vigília
Que eu não vou lhe causar susto
Nem assombro nem quizília,
Que o mal que quiser pra si
Tenho pra minha família.

O velho Pinto, mesmo já em avançada idade, mostrou a força de seu gênio, nesta forte resposta:
-Pode vender a mobília,
o seu prédio, a sua casa,
porque você em cantiga
já sei que não me atanaza,
não tora o bico do Pinto
nem corta a ponta da asa.

(Fonte: Ivo Mascena Veras, PINTO VELHO DO MONTEIRO, o maior repentista do século, Recife, 2002, p. 223).

No mesmo baião, Ivanildo lhe rende homenagem e respeito:

-Pra manchar sua conduta
não tem jogral nem aedo;
ninguém fere com o verso
nem lhe ofende com o dedo.
Quem não tem não chega perto,
Quem tem não chega com medo.

O mestre Pinto reconhece que sua melhor fase já passou e que sua própria viola já anda quase solitária:


-Esse tempo passou cedo,
levou tudo quanto eu tinha:
carregou meu pensamento,
me deixou sem ter vizinha,
batendo nesta viola
que toca quase sozinha!

(Fonte: idem, idem, p. 224/225).

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